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Caso: Transplante de Útero

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Caso

Transplante de Útero

Em 1966, Eraslan, Hamermik e Hardy, realizaram transplantes uterinos experimentais em cães, obtendo inclusive gestações após o procedimento. Eraslan e colaboradores realizaram inúmeros outros experimentos envolvendo transplantes de órgãos em animais na década de 1960.

Em 2 de setembro de 2000 o Dr. Peter Kandela, um médico generalista do Reino Unido, que já publicou mais de 2000 cartas e artigos sobre temas sociais envolvendo medicina, publicou uma carta na revista inglesa The Lancet com um comentário sobre um transplante uterino realizado em Jeddah, na Arábia Saudita. Nesta carta o autor afirma que o governo saudita bloqueou a realização de outros procedimentos deste tipo devido ao resultado desta primeira intervenção. O autor condena a realização do procedimento e afirma que o mesmo tinha sido um fracasso, pois o útero tinha sido rejeitado. Afirmou também que a doadora não havia concordado previamente com a retirada de seu útero. Foi uma carta em tom de denúncia

Um ano após, em 29 de setembro de 2000, esta carta gerou a publicação de um pedido de desculpas por parte do editor da revista Lancet, corrigindo a versão anteriormente apresentada. Segundo as informações fornecidas pelos autores o útero não foi rejeitado e houve a confirmação das autoridades sauditas de que a doadora havia formalmente consentido com o procedimento de retirada do útero.

Em março de 2002, foi publicado o relato deste caso na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics pelos pesquisadores sauditas W. Fageeh, H. Raffa, H. Jabad e A. Marzouki, da Unidade de Transplantes Multiórgãos do Hospital e Centro de Pesquisa Rei Fahad. Eles relataram que no dia 6 de abril de 2000, na cidade de Jeddah, uma senhora de 26 anos foi submetida a um transplante de útero. Os pesquisadores responsáveis pelo procedimento já haviam realizado reimplantes uterinos em 16 babuínos e 2 cabras.

Esta senhora teve o seu útero retirado (histerectomia), em 1994, quando tinha 20 anos de idade, devido a uma grande hemorragia após a realização de uma cesariana. Esta senhora queria ter outros filhos. Tinha dois impedimentos: a histerectomia e a proibição religiosa de utilizar o recurso da maternidade substitutiva. A religião islâmica não aceita este tipo de procedimento, mas aceita o transplante de órgãos reprodutivos, desde que não produzam células germinativas (Conselho de Jurisprudência Islâmica, março de 1990).

A doadora era uma senhora de 46 anos com problemas ovarianos (ovários policísticos), que tinha a indicação de fazer a retirada dos mesmos e concordou em doar o seu útero. Os ovários foram retirados e foram feitos exames que diagnosticaram os cistos ovarianos como benignos. Desta forma foi possível utilizar o seu útero e trompas no transplante. A equipe médica modificou a abordagem usual de retirada do útero visando preservar a sua futura revascularização.

Tanto a doadora quanto a receptora tinham dado um consentimento informado para a equipe de médicos previamente à realização dos procedimentos.

A cirurgia da receptora iniciou quando a retirada do útero da doadora foi confirmada. A receptora já estava utilizando drogas imunossupresoras com o objetivo de reduzir o risco de rejeição do órgão transplantado. A cirurgia transcorreu de acordo com o que havia sido planejado. No 9o dia do pós-operatório a paciente teve alguns sintomas de rejeição. Com as alterações nas drogas utilizadas a paciente voltou ao normal no 14o dia. O útero estava com boa irrigação vascular durante todo este período. A receptora chegou a ter duas menstruações. No 99o dia de pós-operatório a paciente teve novamente sintomas abdominais, tendo sido constado que não havia fluxo vascular uterino. O útero foi removido. Foi constado que as trompas de Falópio ainda estavam irrigadas e viáveis, sem qualquer evidência de rejeição.

A imprensa leiga noticiou a cirurgia somente quando o relato de caso foi divulgado no International Journal of Gynecology & Obstetrics, em 8 de março de 2002. Na imprensa leiga norte-americana a ênfase foi sobre os questionamentos éticos e de custos envolvidos no procedimento. No Reino Unido o procedimento foi saudado pelos cirurgiões britânicos como um marco na transplantologia.

Cabe um comentário sobre a publicação deste relato de caso. A revista International Journal of Gynecology & Obstetrics recebeu o artigo dos autores em 30 de outubro de 2000. Os autores devolveram o artigo, após responderem os comentários dos revisores em 30 de outubro de 2001. O artigo foi aceito para publicação em 10 de novembro de 2001 e publicado em março de 2002.

Kandela P. Uterine transplantation failure causes Saudi Arabian government clampdown.

Lancet. 2000 Sep 2;356(9232):838.

Apology to Dr Wafa Mohammed Khalil Fageeh, obstetrician and gynaecologist and assistant professor at King Abdilaziz University, and her medical team.Lancet 2001 Sep 29;358(9287):1076

Fageeh W, Raffa H, Jabbad H, Marzouki A. Transplantation of human uterus. International Journal of Gynecology & Obstetrics 2002;76:245-251.

Eraslan S, Hamernik RJ, Hardy JD. Replantation of uterus and ovaries in dogs, with successful pregnancy. Arch Surg 1966 Jan;92(1):9-12.

Womb Transplant's Success, Ethics Questioned. Agencia Reuters 08/03/2002

Ética e Transplante de Útero

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Texto atualizado em 12/03/2002 (C)Goldim/2002 .

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