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Controvérsias sobre a Inteligência Artificial (CELG 2026)

Texto · José Roberto Goldim · 2026

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Controvérsias sobre a Inteligência Artificial

José Roberto Goldim

A introdução das novas tecnologias de Inteligência Artificial não representa um fato isolado na história. Inúmeras outras inovações geraram controvérsias.

Uma abordagem possível para esta questão foi proposta por Bruno Latour, que introduziu a Cartografia das Controvérsias, que se baseia na avaliação de três eixos estruturantes: Conflito de Valores, Meios e Fins e Impacto Social.

Ao longo da história, as inovações geraram inúmeros questionamentos sobre a sua utilidade, avaliada em termos de seus benefícios e riscos associados. Isto que está acontecendo agora com a Inteligência Artificial já ocorreu ao longo da história com a introdução de outras tecnologias, tais como a escrita, os livros, a computação e a internet.

Sócrates, no texto Fedro, escrito por Platão, ao redor do ano 370aC, advertiu sobre os riscos da escrita:

“(Com a escrita,) da sabedoria, aos teus aprendizes transmites uma aparência, não a verdade. Pois, com a tua ajuda, muito informados sem ensino, muito informados parecerão, quando na maioria dos casos são desinformados, e difíceis de conviver, tornados aparentes sábios em vez de sábios.”

Jean-Jacques Rousseau, em seu livro Emílio ou Da Educação, escrito no final do Século XVIII, questionou a utilidade do livro como elemento da educação:

“Substituir tudo isso por livros, não é ensinar-nos a raciocinar, é ensinar-nos a nos servirmos da razão de outrem; é ensinar-nos a acreditarmos muito e a nunca sabermos coisa alguma.”

Em 1950, quando o uso de computadores eletrônicos começou a ser utilizado para outras tarefas além de realizar cálculos, Alan M. Turing, propôs o seguinte questionamento: “As máquinas podem pensar?”. Ele propôs uma maneira de avaliar esta questão, por meio do Teste de Turing, que tinha como finalidade identificar se um conhecimento foi gerado por uma pessoa ou por uma máquina. Na sua concepção as máquinas fariam apenas um “jogo de imitação”.

A disseminação do uso da Internet, no final do Século XX provocou uma mudança de paradigma para a sociedade como um todo e para a relação informação, conhecimento e sabedoria de modo particular. Nicholas Carr, em 2010, fez um questionamento importante, baseado nas ideias de Marshall McLuhan, de que as mídias não são apenas canais de comunicação, mas tem uma ação direta no próprio processo de pensamento. A sua preocupação era com o fluxo rápido de informações, com o excesso de meios disponíveis, que estavam “minando a capacidade de concentração e contemplação”. Segundo este autor:

“A mente, habituada ao fluxo rápido de partículas informacionais, deixa de atuar como um ‘mergulhador no mar de palavras’ para ‘deslizar pela superfície como em um jet ski’.

Com o surgimento dos modelos de inteligência artificial, surgiram novos questionamentos. Quatro autoras, duas ligadas a universidades, Emily Bender e Angelina McMillan-Major, e duas a corporações da área de informação, Timmit Gebru e Shmargaret Scmitchell, questionaram, em 2021, se estes novos sistemas de interação, na mesma perspectiva de Turing, os modelos de linguagem utilizados nos chatbots, não seriam apenas “Papagaios estocásticos”. Esta imitação de uma linguagem natural seria fruto de uma reorganização de palavras oriundas de textos pré-selecionados, que geram, de forma probabilística, uma resposta a uma determinada pergunta. Vale o comentário de que uma das autoras, Shmargaret Scmitchell, utilizou um artifício de incluir duas letras - Sc - antes de seu nome e sobrenome, na tentativa infrutífera de burlar os mecanismos de busca e ser identificada diretamente.

Mais recentemente, as ferramentas de Inteligência Artificial tem sido questionadas em termos de seus malefícios. Um grupo de pesquisadores europeus, liderados por Ricard Solé, da Espanha, chegou a propor que estas ferramentas poderiam ser comparáveis a um "Vírus Cognitivo". Estes autores associaram uma abordagem epidemiológica e imunológica ao uso destas ferramentas. A conclusão foi de que “mudanças coletivas abruptas podem surgir mesmo quando a adoção individual é gradual”. Ou seja, é um movimento que pode ocorrer independentemente da vontade e da adesão de indivíduos isolados.

A própria Organização das Nações Unidas (ONU) se pronunciou, em agosto de 2026, por meio do diretor da área de Direitos Humanos, Volker Türk, alertou que “precisamos de verificação independente e de uma colaboração muito mais forte em matéria de segurança dentro da própria indústria”, referindo-se aos riscos associados à Inteligência Artificial.

A Inteligência Artificial, desta forma, se inclui claramente neste contexto de cartografia de controvérsias. Os questionamentos sobre conflitos de valores, da consideração desta tecnologia ser um meio ou um fim, além do impacto social associado estão claramente presentes.

Temos a necessidade urgente de refletir de forma complexa, interdisciplinar e dialogada sobre esta questões. Os questionamentos de Sócrates e de Rousseau são plenamente aplicáveis às ferramentas de Inteligência Artificial. Estas questões têm um impacto, direto ou indireto, sobre todas as pessoas em qualquer parte do mundo. Esta é a ligação desta reflexão da Inteligência Artificial com a Bioética, as repercussões sobre a vida e o viver de todos nós.

Esta preocupação entre informação, conhecimento e sabedoria já foi objeto de da Literatura e da Filosofia.

TS Eliot, em seu poema A Rocha, já questionava:

“Onde a vida que perdemos quando vivos? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”

Na Filosofia, Juger Mittelstrass já refletiu nesta mesma linha, propondo que:

“Não há caminhos simples e diretos entre informações, conhecimento e sabedoria. Quem não reconhecer isso perderá conhecimento e acabará não tendo sabedoria, mas sim com uma nova e perigosa forma de estupidez”.

Referências

Latour B. Science in Action - How to follow scientists and engineers through society. Cambridge: Harvard University Press; 1987.

Platão. Fedro. São Paulo: Editora 34; 2016:193(275a-275b).

Rousseau J-J. Emílio ou Da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil;1995:121.

Turing AM. Computing Machinery and Intelligence. Mind A Q Rev Psychol Philos. 1950 Oct 1;LIX(236):433–60.

Carr NG. The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains. New York: W.W.Norton & Co; 2010.

Bender EM, Gebru T, McMillan-Major A, Shmitchell S. On the dangers of stochastic parrots: Can language models be too big? Proceedings of the 2021 ACM Conference on Fairness, Accountability, and Transparency. Association for Computing Machinery; 2021: 610–623.

Solé R, Ruffini G, Castaldo F, Tuccio M, Seoane LF, de Domenico M, et al. Large-Language Models as a Cognitive Virus. arXiv. 2026;2609(3 Sep):1–12.

Katanich D. Chefe de direitos humanos da ONU alerta: IA representa risco existencial para a humanidade EURONews 07/09/2026 Disponível em: https://pt.euronews.com/next/2026/09/07/chefe-de-direitos-humanos-da-onu-alerta-ia-representa-risco-existencial-para-a-humanidade

Mittelstrass J. The Loss of Knowledge in the Information Age’, in From Information to Knowledge, from Knowledge to Wisdom: Challenges and Changes Facing Higher Education in the Digital Age. London: Portland Press, 2010, pp. 19–23.

Eliot TS. Poesia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1981.

Postado por Jose Roberto Goldim às 06:58

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