Xenotransplante
Xenotransplante
José Roberto Goldim
Xenotransplantes é a denominação dada aos procedimentos que utilizam órgãos ou tecidos de outras espécies animais para substituir os de um ser humano.
Este tipo de procedimento pode ser científicamente justificável, porém do ponto de vista ético existem várias questões a serem consideradas. Uma delas é a que diz respeito ao fato de que o benefício do receptor (sobrevida do ser humano) somente ocorre com um malefício para o doador (morte do animal). Outra questão é que se refere ao recebimento de um órgão ou tecido animal por parte de um ser humano. Como que o receptor irá conviver com uma parte do seu corpo sendo proveniente de um ser de uma outra espécie ? Outra questão é sobre a possibilidade de troca de material genético entre as espécies, com o processo de "humanização" de animais. Vários autores já se manifestaram sobre estres temas e inclusive o Vaticano emitiu um documento especificamente sobre o assunto.
Os pioneiros a realizarem xenotransplantes foram:
- 1906 - Jaboulay - rins de porco e de cabra;
- 1909 - Unger - rim de macaco;
- 1913 - Schonstadt - rim de macaco;
- 1964 - Reemtsma - rim de chimpanzé em 30 pacientes;
- 1984 - Bailey - coração de babuíno (Caso Baby Fae);
- 1992 - Starz - fígado de babuíno.
Em 1996, o FDA autorizou o uso experimental de órgãos de porcos transgênicos. Foi a primeira autorização para a utilização de órgãos de animais geneticamente modificados. Caso estes procedimentos tivessem tido bons resultados, uma nova e importante área da atenção a saúde estaria sendo posta a disposição da humanidade. Com a ocorrência da "doença da vaca louca", especialmente na Inglaterra, onde os porcos trangênicos haviam sido produzidos, houve um grande retraimento nestes procedimentos. Uma importante questão levantada para postergar a utilização destes órgãos animais em seres humanos foi a possibilidade de introduzir vírus ou príons em humanos, isto é, ocorrerem infecções imprevistas decorrentes do procedimento. Alguns autores tem denominado estas infecções de "xenosis" ou de "xenozoonosis". A repercussão desta ocorrência extrapola o âmbito do paciente e atinge a toda a humanidade, com consequências imprevisíveis.
Receber um órgão transplantado sempre gera algum impacto psicológico no receptor. Possuir um órgão funcionante oriundo de um animal dentro de seu corpo é uma situação nova, sem precedentes na história da humanidade. O impacto psicológico deste tipo de intervenção é bastante imprevisível.
A reação imune decorrente do xenotranplante é muito grande, desta forma é necessário "humanizar" as linhagens animais que serão fornecedoras de órgãos. A introdução de características humanas em outros animais é igualmente sem precedentes. A argumentação da segurança genética deste tipo de procedimento pode ser questionada desde o ponto de vista evolutivo.
A utilização em larga escala de órgãos de animais em seres humanos é, ainda, uma possibilidade remota. Mesmo assim, isto não é motivo para protelar ou até mesmo abandonar as reflexões sobre o tema dos xenotransplantes na Bioética Clínica, e principalmente na Ética Aplicada à Experimentação. Dois temas devem ser sempre lembrados os riscos e a repercussão destes procedimentos. Uma importante questão levantada seria a da elaboração do consentimento informado a ser utilizado nestes procedimentos. Quais seriam as informações sobre riscos e benefícios que seriam disponibilizadas aos pacientes que se submeteriam aos xenotransplantes ? Quais os riscos que seriam descritos, se existe uma grande incerteza sobre a sua ocorrência e magnitude ? Este tema deve ser objeto de um grande debate envolvendo toda a comunidade e não apenas os possíveis beneficiários dos transplantes, pois os benefícios podem ser individuais, mas os riscos são coletivos.
Uma alternativa que está sendo proposta é o transplante de células de animais genéticamente modificados. A PLL, que produziu a ovelha Dolly, produziu, em fins de 2000, uma linhagem de miniporcos com a finalidade de gerar linhagens celulares para transplantes celulares de hepatócitos, por exemplo.
Barker JH, Polcrack Respect for persons, informed consent and the assessment of infectious disease
risks in xenotransplantation. L.Med Health Care Philos 2001;4(1):53-70
Documento do Vaticano sobre Xenotranplantes - 26/09/2001
Animais Transgênicos
Ética Aplicada aos Transplantes de Órgãos
Página de Abertura - Bioética