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Pesquisa com Vírus da Varíola

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Pesquisa com Vírus da Varíola

Prof. José Roberto Goldim

A varíola foi a primeira doença oficialmente considerada como erradicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1978. Esta erradicação foi resultado de uma campanha mundial iniciada em 1966. Vale lembrar que a vacina de varíola já tinha sido utilizada por Jenner em 1796. A erradicação da doença somente foi certificada em todos os países em maio de 1980. Nesta ocasião a OMS recomendou que os programas de vacinação de crianças contra a variola já poderiam ser interrompidos. O término deste programa seria concretizado quando todas as amostras deste vírus fossem destruídas. A completa erradicação da varíola seria também a primeira erradicação deliberada e aceita cientificamente de uma espécie de ser vivo. Esta destruição estava prevista para ocorrer 15 anos após, em 31 de dezembro de 1993.

Durante este período, algumas amostras congeladas deste vírus seriam mantidas como testemunhas genéticas e como fonte para pesquisas sobre vacinas e mecanismos imunológicos. Inicialmente, cinco centros de pesquisa no mundo foram selecionados para estocar este material. O acidente ocorrido com a fotógrafa Janet Parker na Inglaterra, neste mesmo ano, fez com que a s medidas de segurança fossem redobradas. Oficialmente, apenas dois locais continuam armazenando amostras deste vírus: o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) de Atlanta, nos Estados Unidos, e o laboratório governamental russo em Koltsovo, na Sibéria. O CDC tem cerca de 450 amostras e o laboratório russo outras 120.

Um dos argumentos utilizados para manter as amostras de vírus vivos congeladas era a possibilidade de testar a ação de novas drogas nesta doença. Vale lembrar que a mesma foi considerada plenamente erradicada. Em 1995, o Instituto de Pesquisas Médicas em Doenças Infecciosas do Exército Norte-Americano realizou investigações utilizando amostras de vírus de varíola para avaliar a ação de medicamentos sobre o mesmo.

Desde 1986 vários cientistas sugeriram que as amostras deste vírus deveriam ser destruídas assim que o sequenciamento genético de uma linhagem fosse terminado. A OMS aceitaria que alguns fragmentos do DNA viral, não contaminante, fossem clonadas para serem utilizadas em pesquisas sobre os genes, proteínas e função do vírus. Como algumas sequencias do DNA viral foram consideradas muito semelhantes a substâncias imunes naturais os cientistas solicitaram uma prorrogação no prazo de destruição. A OMS em janeiro de 1996, em uma reunião do comitê assessor especialmente convocado para discutir esta destruição, ampliou o prazo novamente, passando para 30 de junho de 1999. Em maio de 1999 o comite de virologistas de 16 diferentes países, inclusive do Brasil, postergou novamente esta destruição. O novo prazo dado foi o ano de 2002.

Outro fator importante que está em jogo com a manutenção ou destruição das amostras de vírus da varíola é a possibilidade deste material ser utilizado como arma biológica em um ataque terrorista ou em uma situação de guerra. A letalidade de um surto de varíola, em qualquer país, é estimada em 20%. Alguns jornais, em 1999, publicaram a notícia de que, além da Russia e dos Estados Unidos, também a Coréia do Norte e o Iraque tinha amostras deste vírus. Uma das evidências era a de que os soldados norte-coreanos estavam vacinados contra este vírus. O exército de Israel continuou a receber vacina antivariólica pelo menos até 1996. Vale lembrar que os Estados Unidos mantém um estoque de 10 milhões de doses de vacinas antivariólica. Em 2000 este mesmo país aprovou uma lei sobre como lidar com ações decorrentes de uma ato terrorista utilizando armas biológicas, especilamente varíola e antrax (Lei Frist-Kennedy).

Na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos, foi criado um Centro de Estudos de Biodefesa Civil, com o objetivo de pressionar a destruição das amostras do vírus o mais rápido possível. Muitos cientistas norte-americanos afirmam que os riscos de manter estas amostras são maiores que os benefícios que podem advir de pesquisas com as mesmas.

O conceito de conhecimento perigoso está muito presente neste caso, pois os diferentes membros dos comitês nomeados pela OMS não tem uma perspectiva clara sobre a adequada relação entre riscos possíveis e os benefícios prováveis. Com isto protelam a sua decisão com o objetivo de impedir que seja tomada a decisão por uma medida irreversível.

Este é um exemplo de como uma questão de ética na pesquisa - destruir ou não as amostras, permitindo ou impedindo futuras investigações - pode envolver a totalidade da humanidade. Infelizmente, nos comitês que tem tido poder para deliberar sobre esta questão não tem havido a possibilidade de representação social, apenas de especialistas na área.

Ética na Pesquisa

Material de Apoio - Pesquisa

Caso Janet Parker

Página de Abertura - Bioética

Texto atualizado em 29/07/2000 (c)Goldim-2000

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